9.15.2009

"Lama, sujeira e um milagre" (Yoga)
Estou remoendo um problema.Examino-o de todos os lados, viro-o para cá e para lá, e não consigo encontrar nunhuma solução.Levo-o comigo o dia inteiro e também à noite.Ele não me deixa em paz.Ele? Não, eu não me deixo em paz.Eu me enrolo no problema e não consigo mais livrar-me dele.Quanto mais me ocupo dele, tanto maior ele fica.Minha visão torna-se restrita, meu pensamento estreito.Se eu deixasse o problema de lado por um momento, respirasse, levantasse os olhos, deixando a visão vagueando pela amplitude do espaço...possivelmente ele nem seria mais um problema.
Bem, esta é uma velha história e não apenas minha.Quando os israelitas, ao fugirem do Egito, foram perseguidos pelas tropas do faraó , eles se viram, subitamente, diante de uma barreira intransponível, o Mar vermelho.Mas então aconteceu um milagre, as águas se abriram e eles puderam atravessar para a outra margem.
Podemos imaginar como foi grande a alegria e o entusiasmo que sentiram, porém, houve duas excessões, Reuven e Schimon.Os dois irmãos não ficaram nem um pouco entusiasmados quando o mar se abriu revelando um caminho à frente deles, nem olharam para ele, só viram o chão lamacento diante dos seus pés e isso não lhes agradou nem um pouco.Reclamaram da sujeira que grudava nos seus sapatos e da fadiga imposta por Moisés.Sem nenhum cuidado eles seguiram a multidão, xingando até não poder mais.Essa viagem na lama era a ultima coisa que eles poderiam desejar.
Reuven e Schimon não queriam mais saber de nada, eles queriam voltar ao Egito, onde apesar de toda privação e falta de liberdade, tinham algumas comodidades.Mas eles não ousavam voltar. Seguiam atrás dos outros e nem uma única vez olharam para cima, seus olhares permaneciam colado no chão lamacento.Quando os que caminhavam na frente chegaram à outra margem e começaram a cantar hinos alegres, os dois sacudiram a cabeça aborrecidos.
Para Reuven e Schimon o milagre do mar vermelho não havia acontecido, se eles tivessem olhado para cima uma única vez, seus problemas teriam se dissolvido no nada, alí, na hora!Eles teriam imediatamente esquecido toda a lama e toda a sujeira e se alegrado com os outros pela milagrosa salvação.
As vezes nos sentimos como eles, vamos tropeçando pela vida com um ânimo inconstante, xingamos e muitas vezes esquecemos de desviar o olhar da pequenas atribulações e deixá-lo vaguear na amplitude do espaço, assim, para nós os milagres também não acontecem.
Se olharmos apenas para o chão, perdemos a orientação.O que estimula os passos é o olhar para a distância, eventualmente, o caminho poderá ser cansativo e sujo, mas será que isso é tão importante diante do horizonte que se abre à nossa frente?
Trecho extráido do livro "Como um místico amarra os seus sapatos" de Lorenz Marti